Escrito em:18/8/2008
Pessoal,
Confesso que entendo de poucas coisas na vida.Entendo de marketing e publicidade, o que não é vantagem, é obrigação: vivo disso desde os 19 anos de idade.
Entendo de futebol. Minto. Na verdade, entendo de Corinthians.
Entendo de gostar da minha mãe, da minha mulher, dos meus filhos, da minha família, dos meus amigos e dos meus companheiros de trabalho.
E entendo de sorvetes.
Sou “sorvetólogo” desde menino, tanto que, enquanto a maioria dos normais assalta a geladeira de madrugada, eu assalto o freezer.
Vira e mexe, eu acordo às 3 da manhã, preparo altas misturas de diferentes sabores, tomo tudo e volto a dormir como se nada tivesse acontecido.
Pesquiso sorvetes há anos com enorme dedicação — e até já alterei roteiros de viagem só pra visitar alguma sorveteria muito especial.
Um exemplo: em maio de 2001, quando fui convidado para discutir as relações entre a publicidade e a sociologia com o Domenico De Masi na embaixada brasileira em Roma, meus amigos comentavam quão honroso era aquele convite vindo de uma figura tão importante como o Domenico para dividir um espaço tão especial como o pátio da nossa embaixada.
Evidentemente, eu tinha consciência disso, estava honrado e feliz com o convite do Domenico (que a mulher, Susi, chama de Mimo) e achava o pátio da embaixada belíssimo. Mas confesso que a minha principal motivação para comparecer àquele evento era a proximidade física da gelateria Tre Scalini, na Piazza Navona, onde foi inventado o sorvete tartufo. Naquele momento, meu lado “sorvetólogo” suplantava o meu lado sociólogo com potes e potes de vantagem.
Outra curiosidade a respeito da minha tara por sorvetes: fui, certamente, um dos primeiros brasileiros a acompanhar o surgimento da Häagen-Dazs. Me empolguei desde o início com a qualidade dos produtos e, particularmente, com a estratégia de esconder dos norte-americanos que a marca era norte-americana.
Durante anos, eles acreditaram que a Häagen-Dazs era uma marca nórdica e que o nome significava alguma coisa em finlandês, sueco, dinamarquês ou norueguês, quando, na verdade, a Häagen-Dazs sempre foi americana — e o nome não significa absolutamente nada em língua nenhuma. São apenas duas palavras inventadas, com uma grafia e uma sonoridade que lembram a cultura nórdica pra quem não e nórdico. E elas imprimiram à marca um carisma único.
Acompanhei também, e com o mesmo interesse, a concorrente Ben & Jerry’s, com embalagens no mesmo formato da Häagen-Dazs, sabores mais originais e inventivos e uma abordagem de comunicação mais divertida já a partir dos próprios produtos e seus nomes, como o hoje clássico Cherry Garcia (sorvete de cereja com pedaços da fruta e lascas de chocolate), criado em homenagem ao guitarrista Jerry Garcia.
Atualmente, e voltando aos sorvetes artesanais, minhas sorveterias preferidas no mundo são três: a Vipiteno, em São Paulo, a Barbarac, em Saint-Tropez, e a L’Artisan Glacier, em Juan-les-Pins, também no sul da França.
O dono da L’Artisan Glacier acaba de lançar uma grande novidade: uma linha industrial de sorvetes, vendida em pequena escala, chamada Glaces Neige Azur – L’Artisan Glacier.
Essa linha de sorvetes (na verdade, sorbets) feitos basicamente de frutas é extremamente leve e elaborada. Por enquanto, ela está disponível apenas em pequenos e requintados pontos-de-venda.
Conversei com os donos de um desses pontos-de-venda, um minúsculo armazém em Cap d’Antibes chamado Crémerie du Cap, especializado em queijos, frios, pães, azeites, temperos e sorvetes de alta qualidade. O estabelecimento é uma espécie de mini-Garcia & Rodrigues, do Rio de Janeiro, ou de miniminiminimini-Casa Santa Luzia, de São Paulo.
Os donos são um casal de jovens e simpáticos ingleses que acompanham todo o movimento da casa pessoalmente. Eles me contaram que, desde que começaram a vender o Neige Azur, perceberam que 100% dos clientes que experimentam repetem a compra, abandonando de vez os seus anteriormente preferidos Häagen-Dazs e Ben & Jerry’s.Evidentemente, produtos feitos em escala industrial dependem de diversos outros fatores, além da sua qualidade, para se transformarem em grandes sucessos de venda. Investimentos em produção, política correta de preços, logística de distribuição e talento a serviço da comunicação são peças fundamentais na construção de grandes marcas.
Mas, do jeito que a coisa vai, se o criador do produto souber fazer marketing tão bem quanto sabe fazer sorvetes, em pouco tempo poderemos ter mais um hit mundial da categoria.
Torço para que isso aconteça e, no que depender de mim, posso garantir o consumo de algumas boas litragens e elogios fartos sempre que eu abordar o tema.
Washington Olivetto
P.S.: Coloquei aqui no blog uma foto da embalagem do sorvete Neige Azur, sabor fraise morceaux, ou seja, morango com pedaços de morango. Está vazia porque eu comi tudo.
http://bloglog.globo.com/washingtonolivetto





